2010/10/17 - 12:59 | Berg Brandt

Trabalhar no exterior: “are you ready?”

Depois dos posts dos amigos Davidson Fellipe (“Proposta de emprego no Rio de Janeiro, aceitar ou não?”) e Fellyph Cintra (“5 coisas que você NÃO deve fazer quando receber uma proposta de emprego em outra cidade”) resolvi escrever sobre as minhas experiências de quando decidi deixar o Brasil e vim trabalhar na América do Norte.

Para começo de conversa, boa parte do que eles falaram se aplica internacionalmente: escolher bem onde vai morar, pesquisar custo de vida, saudade da família e amigos, etc.. Porém, aceitar o desafio de trabalhar no exterior incorre ainda em outras peculiaridades.

Imigração

Este é o tópico mais sensível. Ao receber qualquer proposta de trabalho para o exterior, devemos nos certificar que o processo de imigração será feito corretamente: qual o tipo de visto, validade e restrições. Meu conselho: faça o dever de casa. Pesquise por conta própria, pergunte aos amigos, etc.. Enfim, saiba onde está pisando. No Canadá, há um tipo de visto de trabalho que é patrocinado pela empresa que lhe contrata (Work Permit), que é temporário e ligado ao vínculo empregatício, e um visto de imigração, permanente e sem laços com qualquer empresa. A vantagem to Work Permit é que sai rápido (~2 meses) enquanto o processo para o visto permanente pode levar mais de 1 ano. No meu caso, fui inicialmente com o Work Permit e apliquei para o visto permanente quando já estava lá o que me rendeu um processo de imigração permanente mais rápido por já estar no Canadá com emprego estável. Como já contei, acabei mudando para os Estados Unidos. Por aqui há vários tipos de vistos temporários e também vistos de imigração. Pela minha experiência, enquanto o Canadá é um país que precisa de mão-de-obra qualificada e onde a imigração é incentivada, nos Estados Unidos o processo de imigração é um pouco mais complicado, quase sempre tendo que ser patrocinado. No fim das contas, tenha certeza de permanecer legal quando estiver fora do Brasil. Imigração ilegal pode lhe render deportação e proibição de voltar ao país estrangeiro.

Língua

Não pense que inglês meia-boca vai dar conta do recado. Quando mudei para o Canadá, já estava acostumado a tratar e falar em inglês o tempo todo. Porém, é  bem diferente quando se está cercado de inglês por todos os lados. Nos 3 primeiros meses, chegava em casa um caco, super cansado. Isso por que o meu cérebro fazia cerca de 5 operações em cada diálogo: escutar, traduzir, elaborar a resposta, traduzir novamente, falar. Falta de fluência. Além disso, em muitos casos, dominamos o vocabulário técnico, mas escorregamos em coisas simples como “fralda”, “berço” ou “carrinho de bebê” (mudei pro Canadá quando minha filha tinha apenas 1 mês). Isso pode causar situações tanto engraçadas quanto constrangedoras.

Cultura

Em geral, latinoamericanos (e consequentemente brasileiros) são culturalmente muito diferentes das pessoas da América do Norte. Somos mais acolhedores e camaradas, menos competitivos e mais colaborativos. Fazemos piada sobre tudo no Brasil enquanto por aqui há várias coisas que são tabus. Contato físico como beijos e abraços é geralmente evitado, principalmente no trabalho. Um aperto de mão é o bastante. O conceito de tempo também é algo bem diferente. Enquanto para nós, o tempo é algo que passa. Por aqui tempo é algo com um começo e fim bem definidos onde se desempenha alguma atividade: “time is money”. Acho isso extremamente válido para o trabalho, mas é curioso ver que mesmo ocasiões sociais obedecem a regras de horário. Há um certo protocolo que determina inclusive a hora de ir embora.  Isso é muito estranho para que está acostumado a não ter hora nem para chegar nem para sair de uma festa.

Alimentação

Tirando a família e os amigos, da comida é que sinto mais falta: comidinha caseira, suquinhos de frutas, queijinho de coalho, queijinho de manteiga, pãozinho francês – tudo assim mesmo no diminutivo. Aqui é tudo muito prático e industrializado. Geralmente, não se perde tempo fazendo comida. E comida boa leva tempo, é o que dizem. Com 1 mês aqui, não se quer ver mais fast-food (nem pintado de ouro). Comida boa em restaurantes é normalmente muito cara. A melhor coisa a fazer é descobrir lugares onde se venda produtos brasileiros e preparar aquele bom arroz com feijão em casa. Aqui compro farinha (que não pode faltar), feijão e polpas de frutas em um supermercado especializado em produtos brasileiros. Há bons restaurantes brasileiros também, alguns deles com o preço bastante razoável. Algumas coisas bem regionais como Bolo-de-Rolo, só quando alguém vem da “terrinha” e traz: que delícia! Além disso, o jantar, em vez do almoço, é normalmente a refeição mais importante. Em geral, no almoço se faz um lanche, ou “lunch”.

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Claro que há muitos pontos positivos. Profissionalmente, não tenho do que reclamar. Trabalhar no exterior numa das maiores empresas do ramo é uma experiência incrível. Mesmo que se decida voltar ao Brasil, ter esse “job” no currículo é algo que pode fazer a diferença. Aprender a língua é outro diferencial importante. Ademais, rapidamente, se aprende a gostar da organização e da segurança daqui como algo que não se quer viver sem. O padrão de vida também é geralmente melhor e a valorização do Dólar em relação ao Real ainda ajuda quando se vai ao Brasil.

E aí: “are you ready?”

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